 |
| |
| Não há razão para dar gorjeta em restaurante |
| |
[OBS: para melhor aproveitar este artigo, sugiro primeiro ler o O que é o Dilema dos Prisioneiros como introdução e demais na sequência]
Você leu nos artigos anteriores que a cooperação no mundo da Teoria dos Jogos ocorre quando há interações repetidas e particularmente não se sabe quando será a última vez. Numa situação estilo Dilema dos Prisioneiros de apenas uma jogada, a melhor estratégia racional é trair, uma vez que não há uma nova chance para o outro revidar. Escrevi a palavra "razão" no título no sentido de racional, mas evidentemente há outros "motivos" para cooperar.
Vamos usar o exemplo de um restaurante onde a gorjeta é opcional. Não se trata de um Dilema dos Prisioneiros típico onde "o melhor racional individual é o pior coletivo", mas a analogia com situações repetidas versus interação única se encaixa bem neste Dilema da Gorgeta. Há tempos que os economistas se perguntam: porque as pessoas dão gorjetas?. Existem duas explicações - uma emocional e uma racional. A emocional refere-se ao sentimento de que o garçon recebe salário fixo muito baixo e depende de gorjetas para complementar a renda, e assim há uma atitude altruísta de agradecimento e colaboração. A explicação racional desta "generosidade" está exatamente no auto-interesse do cliente nas interações repetidas - frequentadores assíduos dão gorjetas mais polpudas justamente porque os garçons, na próxima vez, irão atender cada vez melhor.
Se dar gorjeta para receber um melhor serviço na próxima vez é um raciocínio válido, imagine o inverso. Se você não der gorjeta, alguns garçons ficam chateados e outros ficam revoltados e vingativos. É preciso tomar cuidado com algumas reações. Por isso, suponha que você é um frequentador assíduo de um restaurante e nunca dá gorjeta. Provavelmente o garçon lembrará de você na próxima vez. Essa é uma situação de interação repetida com demonstração de traição, então cuidado com os garçons vingativos e seu amigo cozinheiro...
Entretanto, você está viajando, sabe que nunca vai voltar naquele restaurante, então por qual razão daria gorjeta? Ainda, porque dar mais dinheiro ao taxista ou camareira? Do ponto de vista racional econômico no mundo do auto-interesse, não há razão para cooperar (gastar mais), especialmente se o valor é alto.
A prática da gorjeta contraria os pressupostos da economia clássica, afinal a gorjeta é uma despesa que os consumidores são livres para evitar e o pagamento é realizado após o serviço feito sem vínculo para melhorar a qualidade. Mesmo assim percebe-se que as pessoas deixam gorjetas, mesmo quando nunca mais retornarão, ou são fregueses raros cuja probabilidade de reencontrar o mesmo trabalhador novamente é mínima. Acadêmicos recorrem para as normas sociais, e não econômicas, como a única explicação para este fenômeno, uma vez que já virou uma prática quase universal nos estabelecimentos. |
 |
| |

Próximo Artigo: Uso do Dilema dos Prisioneiros num Reality Show
Artigo Anterior: Cooperação via estratégia Olho por Olho
|
| |
| |
| Atenção: estou convidando voluntários para uma aula-piloto presencial (em São Paulo) para explicar sobre Teoria dos Jogos e testar alguns conceitos para iniciar a compilação do meu novo livro sobre Pensamento Estratégico. Os voluntários ajudarão com feedbacks e novas idéias. Se você tem interesse, escreva para mim para saber os detalhes. |
| |
|
|
|