Desde a época da faculdade de Engenharia na Poli-USP sou fascinado pelo tópico Inteligência e comecei a ler tudo sobre isso, até que um dia escrevi um livro reunindo todos os insights para leigos [1]. Eu queria entender
porque existem pessoas mais inteligentes que outras. Entretanto, afirmar isso requer uma premissa de que é possível medir inteligência (não estou falando dos testes de QI pois eles refletem uma dimensão muito limitada). Daí começa uma referência circular: se admitirmos que não é possível medir, contradiz nosso senso comum de julgar que "fulano é mais inteligente que outro"; se admitimos que "fulano é mais inteligente", não conseguimos provar o argumento com métricas. Não consegui responder, mas foi gostoso perguntar, aprender e relatar. Abandonei momentaneamente o tema e fui trabalhar com educação em
Ciência e Tecnologia, e hoje meu foco terminou no
Pensamento Estratégico para executivos de empresas e estudantes de administração e economia.
A trajetória foi a seguinte. Tenho um gosto por educação
[2]. Além do meu primeiro ensaio sobre inteligência, após a graduação abri minha própria empresa para unir educação, engenharia e business: uma fábrica e loja de brinquedos científicos para ensinar tecnologia para crianças, além de oferecer oficinas, cursos e publicações. Entretanto, dos três pilares
Educação-Engenharia-Business, eu não entendia nada sobre como administrar uma empresa e o negócio não foi lucrativo, apesar de ter milhões de fãs nos aspectos educacionais e técnicos. Por isso resolvi fazer pós-graduação em administração na Fundação Getúlio Vargas e depois MBA (dois anos full time) nos Estados Unidos, na Carnegie Mellon University com ênfase em Estratégia.
Apareceu a Teoria dos Jogos e a Ciência do Pensamento EstratégicoFoi no MBA que me apaixonei por Teoria dos Jogos. Após fazer a disciplina, fui convidado para ser assistente de professor para outras turmas, basicamente corrigindo prova, fazendo setup dos jogos e tutor para dúvidas. Isso me rendeu o prêmio
Outstanding Teaching Assistant Award no ano
[3]. No trabalho de conclusão, escrevi o paper
Game Theory for Managers: Some review, applications and limitations, que foi referenciado como a melhor publicação em estratégia da disciplina no ano
[4]. E não parei mais.

Desde que conheci a Teoria dos Jogos tenho me empenhado bastante em estudar mais. O chamado "rato de biblioteca" hoje em dia se tornou o rato da Amazon e do Google. Comprei praticamente todos os livros que vi pela frente e naveguei muito na Internet em busca de mais conhecimento. Até usei minhas férias do trabalho para pegar um avião para os EUA e participar de um congresso internacional de Teoria dos Jogos na Kellogg School of Management - Northwestern University.
Apesar de tudo, admito que a Teoria dos Jogos, da forma que é ensinada na academia e nos congressos, é extremamente entediante e difícil ao leigo não-matemático. Até a versão ensinada nas escolas de Business possui um rigor ao conceitos originais de difícil aplicação real. Se formos olhar o lado acadêmico, é fascinante pela complexidade intelectual, mas é limitada. Minha opinião é que a Teoria dos Jogos é apenas um pedaço para um pensar estratégico mais amplo. Por isso minha proposta é unir (1) os modelos abstratos de raciocínio da Teoria dos Jogos abandonando a matemática e modelagem, (2) as estórias e analogias das interações humanas - os "jogos" e (3) os demais conceitos de teoria de decisão, economia clássica, economia comportamental, psicologia cognitiva, influência dos incentivos, entre outros.
É preciso colocar tudo isso em um mesmo framework, como verá mais adiante.
No final, coincidência ou não, o estudo da Teoria dos Jogos e do Pensamento Estratégico me permitiu entrar em contato novamente com os pilares originais - a
Educação pois escrevo os artigos para ensinar os leitores, o
Business ao abordar sobre estratégia, competição, cooperação e movimentos, a
Engenharia por ser um assunto que exige a lógica e racionalidade e a
Inteligência pois estamos tratando sobre o raciocínio e o pensar. Eu gosto muito da frase abaixo:
Assim como os atletas têm o prazer de treinar seus corpos, também há imensa satisfação em treinar a mente para pensar de uma forma que é simultaneamente racional e criativa. Com todos os seus enigmas e paradoxos, a Teoria dos Jogos oferece um magnífico ginásio mental para essa finalidade. Espero que exercitar-se neste equipamento lhe traga o mesmo prazer que eu tive
- Ken Binmore, em Playing for RealImagino que muitos leitores também gostam de fazer o exercício mental neste ginásio chamado Pensamento Estratégico. No meu caso, se deve a cinco fatores:
1. O lado acadêmico e o gosto pela pesquisa: a Teoria dos Jogos me desafia intelectualmente. Tenho o mesmo sentimento descrito acima por Ken Binmore. A teoria pode ficar difícil o tanto você quiser e sou fascinado em entender essa complexidade. Eu me sinto novamente nos bancos universitários: como a Teoria dos Jogos não é muito difundida, estudá-la requer um trabalho de pesquisa, procurando referências bibliográficas, indo às livrarias, buscando sites especializados, matérias na mídia, etc. Um dos meus desafios é decifrar o complexo e simplificar para os leigos, estudantes e executivos, tornando a leitura mais gostosa e prática.
2. O lado racional, dos modelos e dos padrões: como bom engenheiro que sou, tudo na vida tem regras, modelos, causa e efeito. A Teoria dos Jogos usa a lógica para explicar o comportamento humano. Não necessariamente consegue explicar tudo, mas fornece ótimos insights e, depois de entendê-la, muitas situações fazem sentido. Um dos pontos mais fortes da Teoria dos Jogos é "explicar a lógica das situações". Através de alguns modelos e estórias, é possível perceber a lógica em várias interações humanas. Por "lógica" entende-se uma explicação coerente, refletida, baseada nos incentivos existentes.
3. O lado estratégico, do dilema entre competir e cooperar: a Teoria dos Jogos tem esse nome, "jogo", porque as interações estratégicas tem uma grande analogia com os jogos - dois ou mais jogadores, com auto-interesse, disputando algo com uma característica principal: o resultado da interação (ou do jogo) depende das decisões de ambos jogadores, e não de uma ação isolada. Pensando bem, a vida cotidiana e empresarial é recheada de situações estratégicas em você precisa se antecipar aos movimentos do seu "oponente" em busca de um resultado, seja na competição ou na cooperação.
4. O lado dos incentivos e dos princípios econômicos: um dos postulados em Economia é que as pessoas respondem a incentivos. Entendê-los e usá-los corretamente gera uma grande vantagem para modelar comportamentos. A Teoria dos Jogos parte do princípio que, dados os incentivos, as pessoas vão escolher suas ações. Aos conhecê-los poderemos mapear e antecipar as reações para então decidirmos o que fazer, enquanto isso o outro jogador está pensando o mesmo sobre nós. Esse raciocínio sem fim "eu penso que ele pensa que eu penso..." é desafiador e um dos segredos dos grandes estrategistas.
5. O lado cognitivo e da forma que as pessoas pensam: a racionalidade pura não explica todos os fenômenos sociais pois os indivíduos tomam decisões de forma emocional sem avaliar consistentemente todos as alternativas e resultados. Em outras ocasiões o ser humano escolhe algo pior para si. Mesmo assim, podemos explicar a lógica da irracionalidade. Unir a Teoria dos Jogos com a Teoria Comportamental (com explicações da heurística e seus viéses) potencializa o seu uso para saber antecipar os movimentos, conhecendo as particularidades do adversário. Isso também é absolutamente desafiador nesta jornada pelo saber.

Todos esses fatores unidos me ajudam a entender o mundo com
outros olhos. Certamente, a Teoria dos Jogos traz muito mais perguntas do que respostas. Mas tal como a Filosofia, bom mesmo é questionar, é pensar, é refletir. E no meio de todos os insights, várias aplicações aparecem, como você verá nos demais textos.